Canetas emagrecedoras reescrevem o cardápio dos brasileiros
Medicamentos devem ganhar versão genérica em 2026, prometem democratizar acesso e acelerar transformação nos padrões alimentares

Pela primeira vez na história do Brasil, um medicamento está mudando o que as pessoas comem antes mesmo de se tornar amplamente acessível. As canetas emagrecedoras de GLP-1, cujo mercado deve atingir R$ 20 bilhões em 2026, quase dobrando em relação aos R$ 11 bilhões de 2025, estão tratando a obesidade e, silenciosamente, reconfigurando a indústria alimentar brasileira.
A chegada dos genéricos de semaglutida provavelmente a partir de março de 2026, quando expira a patente no Brasil, representa o ponto de inflexão dessa transformação. Com preços potencialmente abaixo de R$ 500 mensais, menos da metade dos atuais R$ 1.000 (e que podem chegar a até R$ 3.000), laboratórios nacionais preparam-se para democratizar o acesso a tratamentos que já estão alterando radicalmente os hábitos alimentares de quem os usa.
Os números revelam uma mudança comportamental sem precedentes. Usuários de canetas emagrecedoras reduzem a ingestão calórica em 20% a 30%, mas não é apenas uma questão de quantidade. A transformação é qualitativa: o consumo de álcool despenca até 50%, salgadinhos e doces praticamente desaparecem do carrinho de compras, enquanto a demanda por alimentos de alta densidade nutricional explode.
Ao longo de 2025, entrevistei vários empresários de restaurantes e do setor que já mudaram os cardápios e ofertas de produtos por conta da onda das canetas emagrecedoras. É algo que vai além da saciedade. O corpo cria uma indiferença genuína por alimentos ultraprocessados.
Os médicos já prescrevem o remédio com a orientação “a depender do melhor preço”, listando até quatro opções de semaglutida na mesma receita. Essa prática, que prepara o terreno para os genéricos, consolida um mercado onde o princípio ativo importa mais que a marca e onde o paciente escolhe baseado no custo.
Quando os genéricos chegarem às farmácias brasileiras, potencialmente expandindo o acesso para milhões de pessoas que hoje não conseguem arcar com os custos, essa mudança alimentar ganhará escala nacional. O Brasil, que já caminha para se tornar o segundo maior mercado global de GLP-1 (atrás apenas dos Estados Unidos), testemunhará uma aceleração sem precedentes na reconfiguração dos padrões de consumo.
Nos EUA, por sinal, o governo lançou as novas Diretrizes Alimentares para Americanos nesta semana, priorizando alimentos reais integrais e densos em nutrientes, combatendo o alto consumo de produtos ultraprocessados.
As novas diretrizes destacam uma crise de saúde nos Estados Unidos, com 50% da população com pré-diabetes ou diabetes, 75% dos adultos com pelo menos uma condição crônica e 90% dos gastos em saúde voltados para doenças ligadas à dieta.
A pirâmide invertida coloca no topo proteínas, laticínios e gorduras saudáveis (como ovos, frutos do mar, carnes, laticínios integrais, nozes e abacates), seguidos de vegetais e frutas, com grãos integrais na base.
As diretrizes criticam décadas de orientação que favoreceu alimentos processados e elevam o consumo de proteínas e laticínios integrais, alinhando-se à campanha “Make America Healthy Again”, do presidente Donald Trump. Elas incluem orientações para todas as fases da vida, limitando açúcares adicionados, sódio excessivo e aditivos artificiais.
As recomendações principais da nova dieta americana são:
- Proteínas - meta de 1,2g a 1,6 g por kg de peso corporal/dia, priorizando fontes animais e vegetais de alta qualidade em todas as refeições;
- Vegetais e frutas - 3 porções de vegetais e 2 de frutas por dia, priorizando frescos e pouco processados.;
- Grãos integrais – de 2 a 4 porções/dia, reduzindo drasticamente carboidratos refinados e ultraprocessados.
Indústria se mexe
A massificação iminente das canetas emagrecedoras desencadeou o que analistas batizaram de “Economia Ozempic”, e a indústria de alimentos corre para se adaptar. A XP Investimentos já rebaixou ações da Ambev antecipando o impacto no consumo de álcool. Enquanto isso, fabricantes de alimentos reposicionam portfólios inteiros.
A Nestlé lançou nos EUA a marca Vital Pursuit, com refeições congeladas desenhadas especificamente para usuários de GLP-1: alta proteína, alta fibra, porções reduzidas. A Danone reportou aumento de 40% nas vendas do iogurte grego Oikos e criou o Oikos Fusion, um smoothie lácteo “GLP-1 friendly” com whey protein para evitar perda muscular. No Brasil, a linha YoPRO foi reforçada com o mesmo objetivo.
As gigantes de proteína animal brasileiras também se movimentam. A Seara lançou a linha Seara Protein, com refeições de até 30g de proteína custando cerca de 50% mais que versões padrão. A BRF reformulou o Meu Menu com foco proteico, evidenciando o que executivos chamam de “transição do consumo de volume para consumo de valor”, com menos quantidade, mais qualidade nutricional, maior disposição a pagar.
Até Coca-Cola e PepsiCo diversificam agressivamente. A Coca lançou Simply Pop, refrigerante prebiótico. A PepsiCo foi além e comprou a startup de refrigerantes prebióticos Poppi por US$ 1,95 bilhão, sinalizando que o futuro das bebidas passa por funcionalidade, não apenas sabor.
Ciente da revolução que se aproxima, a dinamarquesa Novo Nordisk lançou uma guerra de preços preventiva. O Rybelsus (versão oral) chegou a R$ 565 com descontos de até 56%. O Ozempic (1 mg), que custava mais de R$ 1.500, agora sai por cerca de R$ 999. Até o Wegovy, lançado especificamente para obesidade, teve doses iniciais reduzidas para R$ 875.
Os cortes, que chegaram a 19,6% em junho de 2025, respondem tanto à competição com o Mounjaro da Eli Lilly (R$ 1.400 a R$ 3.000) quanto à iminência dos genéricos. A parceria estratégica com a Eurofarma, gerando as marcas Extensior e Poviztra com preços 10% menores, expande cobertura de mercado antes que os verdadeiros genéricos cheguem.
A mudança alimentar catalisada pelas canetas ganha urgência quando se observa os números da obesidade. No Brasil, 61% da população adulta está acima do peso, e a prevalência de obesidade mais que dobrou em duas décadas (de 11,8% em 2006 para 24,3% em 2023). Globalmente, a OMS projeta custos de US$ 4,32 trilhões anuais até 2035, um mercado trilionário comparável ao impacto da pandemia de Covid-19.
A revolução alimentar pode ganhar nova dimensão com inovações que vêm aí. Em dezembro de 2025, a FDA aprovou a versão oral do Wegovy (semaglutida 25 mg), primeiro comprimido diário para obesidade nos EUA, com perda de peso média de 16,6% em 64 semanas. Analistas preveem que pílulas representarão até 20% do mercado até 2030, atraindo pacientes com aversão a agulhas.
Mas a verdadeira disrupção pode vir da retatrutide da Eli Lilly, um agonista triplo (GLP-1, GIP e glucagon) que no estudo TRIUMPH-4 demonstrou perda de peso média de 28,7% (cerca de 32,3 kg por paciente), com quase 40% perdendo 30% ou mais do peso corporal. Esses percentuais eram antes associados exclusivamente à cirurgia bariátrica.
A indústria de alimentos enfrentará consumidores não apenas comendo menos, mas potencialmente reeducando paladares de forma permanente.
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